A menopausa não é o fim de nada. É um dos poucos ritos de passagem que a cultura contemporânea ainda não soube nomear direito. E por isso, muita mulher chega nele achando que está enlouquecendo, quando na verdade está começando o trabalho mais importante da segunda metade da vida.

O psicanalista junguiano James Hollis chama essa travessia de “passagem do meio”. No livro que leva esse nome, ele descreve a crise da meia-idade não como um problema a ser resolvido, mas como um rito, um convite. Um pedido interno, muitas vezes doloroso, para deixarmos de viver a vida que os outros escreveram por nós e começarmos a viver a vida que é nossa. Para a mulher, esse chamado costuma coincidir, biológica e simbolicamente, com a menopausa.

A “primeira idade adulta”: quem construiu a mulher que você foi até aqui

Hollis descreve a juventude e a primeira idade adulta como um período marcado pela “personalidade provisória” — um jeito de estar no mundo forjado nas expectativas dos pais, no que a sociedade espera de uma mulher, nas estratégias que a menina de dentro criou para ser amada, aceita e não abandonada. Casamos, temos filhos, escolhemos profissão, montamos casa.  Projetamos nessas escolhas a esperança de identidade, salvação e completude.

E funciona por um tempo. Até certo ponto da vida, correr atrás das metas do mundo externo dá contorno, propósito, direção. Mas há um dia em que essa estrutura começa a rachar. Não porque algo esteja errado, mas porque o objetivo dela — que era te levar até aqui — já foi cumprido.

A “miséria” da meia-idade: por que os sintomas não são só hormonais

Quando as projeções começam a se desgastar, surge o que Hollis chama de “pressões tectônicas”. O casamento que sustentava sua identidade começa a parecer estreito. A maternidade, que foi centro de gravidade por décadas, se transforma à medida que os filhos partem. A carreira que te definia deixa de emocionar. E o corpo, ao mesmo tempo, entra em uma reorganização inédita. Ondas de calor, insônia, ansiedade, tristeza sem motivo aparente, tédio, sensação de estar vivendo a vida errada.

Chamamos tudo isso de “sintomas da menopausa”, e parte é. Mas nem tudo é hormônio. Uma parcela relevante desse sofrimento é a colisão entre quem você é de verdade e os papéis que você interpretou por 30, 40 anos. É a dor de perceber que a vida construída sob medida para a menina precisa ser refeita para a mulher inteira que você está prestes a ser.

O convite escondido no sofrimento

A miséria da meia-idade, na leitura de Hollis, não é um castigo. É um convite. O sofrimento aparece exatamente

porque a psique quer que algo mude. Ela está tentando te empurrar para uma segunda idade adulta, mais autêntica, menos dependente da aprovação externa. Uma vida em que você para de perguntar “o que esperam de mim?” e passa a perguntar “quem sou eu, além dos papéis que interpretei?”.

Essa pergunta não tem resposta rápida, e ninguém pode responder por você. É por isso que a travessia costuma ser silenciosa e solitária, mesmo quando você tem gente ao lado. É um trabalho de dentro. Um trabalho que exige coragem, tempo, e muitas vezes companhia especializada — terapia, direção espiritual, análise, círculos de

mulheres, um médico atento ao climatério.

Como começar a atravessar

Não existe manual, mas existem gestos que ajudam. O primeiro é parar de tratar o mal-estar como fracasso pessoal.

Você não está falhando. Está sendo empurrada. O segundo é abrir espaço, mesmo pequeno, para escutar o que está querendo emergir: escrever, caminhar sozinha, ficar em silêncio, retomar o que tinha ficado no meio do caminho, dar atenção aos sonhos noturnos (os literais, os que aparecem quando você finalmente dorme).

O terceiro gesto é assumir que nenhum casamento, nenhum filho, nenhum emprego, nenhuma dieta e nenhuma reforma da sala vai te curar magicamente. A cura, nessa fase, é um trabalho interno, e ele começa quando você para de terceirizar sua salvação. Cuidar do corpo (sono, alimentação, movimento, hormônios), buscar acompanhamento psicológico, e criar espaço na semana para o que te movimenta de verdade não são luxos. São a infraestrutura da segunda metade da vida.

A menopausa, quando acolhida como rito, deixa de ser uma queda e passa a ser um portal. Do outro lado dele, existe uma mulher que  você ainda não conhece. E ela está esperando você chegar.

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